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O tricô, das origens à era digital

Desde seu surgimento aos dias atuais, atividade evolui, mostra versatilidade, se reinventa e serve a diferentes propósitos.

 

 

Uma das primeiras referências sobre o tricô é feita na obra Odisseia, de Homero. O pintor inglês John Waterhouse mostra esta cena no quadro “Penelope and the Suitors” 

 

O QUE É O TRICÔ – ORIGENS

Tricô é o processo de usar duas ou mais agulhas para fazer um loop (laço) de fios em uma série de loops interconectados, a fim de criar uma peça acabada ou algum outro tipo de tecido. A palavra é derivada de “knot”, que acredita-se ter origem no verbo holandês “knutten”, o qual é similar ao inglês antigo “cnyttan” (to knot), ou “dar um nó”.

 

Tricotar é uma técnica de produção de tecido a partir de um fio de lã. Ao contrário da tecelagem, o tricô não requer um tear ou outro equipamento grande, tornando-se uma técnica valiosa para os povos nômades e não-agrários.

É do fim do século VIII a.C, uma das primeiras referências sobre o tricô. É feita na obra Odisseia, de Homero. A personagem Penélope vê o marido Ulisses ser chamado para lutar na Guerra de Troia.

Os anos passavam e não havia notícia de Ulisses. O pai de Penélope a pressiona para que se case novamente. Penélope quer aguardar a volta do marido. Estabelece a condição de que o novo casamento somente acontecerá depois que termine de tricotar um sudário para Laerte, pai de Ulisses. A noite desmancha o que teceu durante o dia, aos olhos de todos e assim nunca termina o trabalho.

John William Waterhouse, pintor inglês, mostra esta cena no quadro “Penelope and the Suitors” (“Penélope e os Pretendentes”) de 1912. (Imagem que ilustra esta página)

 

INÍCIO NA EUROPA 

Os primeiros itens de malha conhecidos na Europa foram feitos por tricoteiros muçulmanos empregados por famílias reais cristãs espanholas. Seu alto nível de habilidade no tricô pode ser visto em vários itens encontrados nas tumbas da Abadia de Santa María la Real de Las Huelgas, um mosteiro real, perto de Burgos, na Espanha. Entre elas estão as capas de malha e as luvas encontradas no túmulo do príncipe Fernando de la Cerda, que morreu em 1275.

Numerosas outras peças de vestuário e acessórios de malha também datadas de meados do século XIII foram encontradas em tesouros da catedral na Espanha.

 

REVOLUÇÃO INDUSTRIAL

A máquina de tricô mecânica foi inventada em 1589 por William Lee, um clérigo inglês. Depois de receber um par de meias pretas de William, a rainha Elizabeth I recusou-se a conceder-lhe uma patente para sua invenção. Ela queixou-se de que a máquina dele fazia meias de lã muito grosseiras para os tornozelos reais. Ela não gostava da sensação das meias ou da sua forma grosseira e temia que a máquina tirasse empregos do seu pessoal.

 

No entanto, o rei Henri IV da França viu a oportunidade que a invenção de William proporcionou e ofereceu-lhe apoio financeiro. O inventor mudou-se para Rouen, onde construiu uma fábrica de meias. Em pouco tempo, os franceses espalharam o tear de tricô pela Europa.

Quando o dispositivo voltou à Grã-Bretanha, a Worshipful Company of Framework Knitters foi incorporada em 1657 em Londres. A atividade era predominantemente realizada em casa, geralmente com a participação de toda a família.

 

É interessante notar que aqui na região da Serra Gaúcha esta característica se mantém até os dias atuais. A maioria dos associados ao Fitemasul ainda são empresas familiares.

 

MODA

Os anos 1920 viram um grande aumento na popularidade das malhas em grande parte do mundo ocidental. Malhas, especialmente blusas/pulôveres, tornaram-se parte essencial das novas modas da época para homens, mulheres e crianças, em vez de vestimentas práticas normalmente associadas a determinadas profissões (por exemplo, pescadores).

 

No final dos anos 1910 e início dos anos 1920 o vestuário de malha era frequentemente associado a desporto e lazer. E o vestuário muitas vezes era associado a esportes particulares; por exemplo, blusas brancas/puxadores, muitas vezes com listras coloridas (cores do clube) no colarinho, tornaram-se comuns para o tênis e o críquete.

 

A técnica Fair Isle teve seu apogeu na década de 1920, depois que Edward VIII, então Príncipe de Gales, vestiu um colete com uma estampa feita com esta técnica. Fair Isle é uma ilha britânica (Shetland Islands) onde se tricotava desta maneira. Utiliza-se este nome para projetos que tenham uma paleta de cores de até 5 tons, porém, não se utiliza mais que dois tons por carreira. Se usada mais cores, dá-se o nome de Intarsia.

 

A alta moda também abraçou a malha, com Coco Chanel (1883/1971) fazendo uso destacado dela e a revista Vogue apresentando padrões (moldes).

Antes da década de 1920, a maior parte do tricô comercial no mundo ocidental se concentrava na produção de roupas íntimas e meias. Isso se expandiu enormemente, assim como o gosto do público pela moda em malha.

 

DÉCADAS DE 1920/1930

O destaque da malha na moda da década de 1920 continuou, e refletiu as mudanças da moda. Combinar métodos tradicionais de novas maneiras tornou-se mais comum, e novas tecnologias, como fechos de correr, começaram a ser usadas em malhas. Novos fios sintéticos começaram a ficar disponíveis.

 

As privações decorrentes da Grande Depressão (também conhecida como Crise de 1929, com início em 1929 e terminando apenas com a Segunda Guerra Mundial) levaram muitas pessoas a se voltarem para o tricô por necessidade.

 

Era muito mais barato tricotar suas próprias roupas do que comprar produtos de malha manual (ou mesmo de máquina). Eram necessárias habilidades para fazer reparos em roupas, meias e roupas íntimas existentes. Moldes agora frequentemente eram incluídos em revistas femininas populares, e também frequentemente refletiam essa necessidade.

 

A década de 1930 também viu um aumento na popularidade do tricô comercial. Muitas malhas vendidas comercialmente durante a década de 1920 foram feitas à mão. No entanto, os custos desta e de outras pressões da época causaram uma grande mudança nos consumidores em relação a produtos de malhas mais baratos.

 

Make do and Mend (algo como “Fazer e Reparar”) foi o título de um livreto produzido pelo Ministério da Informação do Departamento Britânico do Governo de Guerra. A lã era escassa, e o livreto encorajava as mulheres a se desfazerem de itens velhos de lã que não podiam ser usados para que a lã fosse reutilizada.

Moldes de tricô foram impressos para que as pessoas pudessem fazer itens para o Exército e a Marinha usarem no inverno, como gorros e luvas. Isso não apenas produziu os itens necessários, mas também deu aos que estavam na “frente doméstica” uma sensação positiva de contribuir para o esforço de guerra.

 

ANOS 50 E 60: HAUTE COUTURE

Após os anos de guerra, o tricô experimentou um enorme impulso à medida que mais cores e estilos de fios foram introduzidos.  Milhares de padrões alimentavam um mercado faminto por design de moda em cores vivas.

 

O twinset foi uma combinação extremamente popular para quem fazia tricô em casa. Consistia de um top de mangas curtas com um cardigã de mangas compridas da mesma cor, para serem usados juntos. As meninas foram ensinadas a tricotar na escola, pois era considerada uma habilidade útil, não apenas um hobby. Revistas como Pins e Needles, no Reino Unido, traziam moldes de dificuldade variada, incluindo não apenas roupas, mas também cobertores, brinquedos, bolsas, cortinas de renda e outros itens que poderiam ser vendidos para se obter algum dinheiro.

 

ANOS 1980/1990

Avanços tecnológicos, como máquinas de tricotar computadorizadas, possibilitaram novos projetos e abordagens para a malharia. Alguns artistas começaram a ver o tricô como uma forma de arte legítima, em vez de uma indústria artesanal ou caseira, e foi dada mais atenção às possibilidades de design de tricô a partir de uma perspectiva artística, em vez de apenas abordagens de moda ou práticas.

 

No final dos anos 80, muitos dos fornecedores do mercado de malhas haviam desaparecido ou sido absorvidos por outras empresas, enquanto as lojas de lã sofriam uma redução acentuada nos números. No entanto, tricotar em casa ainda tinha um público forte e fiel. O crescimento das feiras de artesanato, a publicação de livros sobre muitos aspectos do tricô e o contínuo apoio entre aqueles que aprenderam a habilidade no auge dos anos 60 e 70, mantiveram vivo um considerável interesse em tricotar. Uma das mudanças mais influentes foi a disseminação da Internet, que permitiu que os adeptos da atividade compartilhassem conselhos, modelos e experiências. E também viabilizou o acesso direto aos suprimentos, em vez de dependerem de fontes locais. Essas tendências, como se sabe, continuam até hoje.

 

RENASCIMENTO/SÉCULO 21

O século 21 viu o ressurgimento da malharia, que coincide com o crescimento da Internet e tecnologias que nela podem ser encontradas, bem como a  “Revolução Artesanal” geral e o interesse pelo artesanato DIY – “Do It Yourself” (“Faça Você Mesmo).

 

Fibras naturais de animais, tais como alpaca, angorá e merino e fibras vegetais, principalmente algodão, tornaram-se mais fáceis e menos caras de coletar e processar e, portanto, mais amplamente disponíveis. Fibras exóticas, como seda, bambu, iaque e Qiviut (retirada da pelagem do boi-almiscarado do Alasca) estão crescendo em popularidade também.  

A indústria de fios começou a produzir fios inovadores, gerando resultados impressionantes sem a necessidade de anos de experiência em tricô.

Designers começaram a criar padrões que trabalham rapidamente em grandes agulhas, um fenômeno conhecido como  “instant-gratification knitting”.

 

Celebridades como Julia Roberts, Winona Ryder, Dakota Fanning e Cameron Diaz foram vistas tricotando e ajudaram a popularizar o renascimento da arte.

 

Houve também um retorno dos homens à arte de tricotar – um exemplo são os designers têxteis Arne Nerjordet & Carlos Zachrison, e outro a publicação de livros destinados a um público masculino.

 

Como o tempo e a tecnologia mudam, o mesmo acontece com a arte de tricotar. A internet permite que os adeptos da prática se conectem, compartilhem interesses e aprendam uns com os outros, seja na rua ou em todo o mundo.

 

Entre os primeiros fenômenos de tricô da Internet estava o popular KnitList, com milhares de membros. Em 1998 surgiu a primeira revista de tricô online, a KnitNet (a publicação foi suspensa em sua 54ª edição, em 2009.) Blogs mais tarde adicionaram combustível ao desenvolvimento de uma comunidade internacional de malharia. Padrões de fontes impressas e online inspiraram grupos (conhecidos como knit-a-long, ou KAL's) centrados em tricotar um padrão específico. Podcasts de tricô também surgiram, com muita polinização cruzada de ideias de blogs, zines e livros de tricô. Desenhos e técnicas tradicionais que haviam sido preservados por um número relativamente pequeno de pessoas agora também estavam encontrando um público mais amplo.

 

Também sinal da popularidade do tricô no início do século 21, uma grande comunidade internacional online e um site para os amantes da atividade, o  Ravelry (https://www.ravelry.com/account/login) foi fundado por Casey e Jessica Forbes em maio de 2007. 

 

Inicialmente disponível apenas por convite, o site conecta entusiastas de tricô e crochê em todo o mundo e, em 16 de outubro deste ano (2018) tinha 8,110,943 usuários registrados.

 

INDÚSTRIA SE EXPANDE E REIVENTA

Como dito, a indústria vem se aprimorando e descobrindo novas formas de utilização. Por exemplo:  nos métodos tradicionais de produção de roupas de malha, o tecido é o principal componente. Normalmente, no corte de roupas, coloca-se moldes de papel 2D sobre um pedaço de tecido, o mais próximo possível um do outro, e depois corta os moldes do tecido, deixando um monte de resíduos no chão.

 

Outro processo são as malhas no formato do molde da roupa que saem da máquina de tricô que depois são costuradas juntas. Entre esses processos, o desperdício de tecido é maior no primeiro processo. Como resultado, é necessário mais tempo para produzir uma peça de roupa, assim como a eficiência torna-se menor e o custo aumenta.

 

Com a tecnologia de tricô sem costura ou tricô 3D, não há desperdício de tecido. Esta tecnologia pode produzir diretamente produtos acabados e diminui o processo tradicional de fabricação de roupas de malha. Isso leva a uma economia de custos de produção de até 40% em comparação com a fabricação tradicional e ajuda as empresas a reagirem mais rapidamente às novas tendências da moda, garantindo mais conforto, adequação, qualidade e durabilidade.

 

O tricô sem costura permite que os designers criem um estilo personalizado que pode resolver problemas que encontramos com nossas roupas atuais. Esta tecnologia permite a eliminação de costuras laterais na peça e desperdício de materiais através da utilização de teares circulares ou máquinas de tricô 3D, que produzem o produto num processo único e contínuo. Esta tecnologia de ponta transforma, através de um ciclo de produção mais eficiente, o fio em peças de qualidade e personalizáveis.

 

Como a moda ética e sustentável está mais importante do que nunca, tricotar em 3D é uma forma inovadora de reduzir alguns dos nossos problemas como poluição e desperdício têxtil.

 

A tecnologia sem costura transforma os cones de fio numa roupa quase acabada em cerca de 40 minutos, com quase zero de desperdício. Então, a peça só precisa de 15 minutos de trabalho, que inclui tirar qualquer fio solto, costurar a etiqueta, passar e embalar. Devido às possibilidades ilimitadas, o tricô 3D pode ser aplicado a roupas íntimas, roupas de banho, roupas esportivas, roupas de lazer, roupas inteligentes, roupas de dormir além de calçados, bolsas, móveis e luminárias. É uma das tecnologias de Indústria 4.0 para se montar uma fábrica automatizada de moda.

 

Entre os maiores fabricantes de máquinas de tricô sem costura estão a japonesa Shima Seiki e a alemã Stoll, enquanto a italiana Santoni é líder mundial em teares circulares de tricô sem costura.

A Indústria 4.0 é a palavra de ordem que acompanha o surgimento de fábricas inteligentes na 4ª revolução industrial - a era digital.

 

 

Referências e pesquisa:

- Assessoria de Imprensa do Fitemasul
- Comitê de Estilo
- Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami
- Blog Stylourbano (http://www.stylourbano.com.br/)
- Cornu, Georgette, Marielle Martiniani-Reber, et al. Tissus d'Égypte: témoins du monde arabe, VIIIe à XVe siècles, 1993. ISBN 2-908528-52-5
- Gosling, Lucinda. Knitting for Tommy: Keeping the Great War Soldier Warm. Stroud, Glouchestire, UK: The History Press, 2014. ISBN 978-0750955966
- Macdonald, Anne L., No Idle Hands: The Social History of American Knitting, 1988. ISBN 0-345-33906-1
- Rutt, Richard, A History of Hand Knitting, Interweave Press, 1987. ISBN 0-934026-35-1
- (Games, Alex (2007), Balderdash & piffle : one sandwich short of a dog's dinner, London: BBC, ISBN 978-1-84607-235-2).
- The Grove Encyclopedia of Decorative Arts.